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segunda-feira, 3 de julho de 2017

Sentimentos materializados

Estava hoje me perguntando quando foi que eu comecei a acumular esmaltes (o destralhe deles está começando a me cansar, mas não cheguei no objetivo ainda meio absurdo de ficar com "apenas" 1 gaveta de esmaltes). Está cansativo demais me livrar deles, e comecei a pensar no absurdo que foi acumular tantos frascos de uma coisa que perde a validade, muda a qualidade e a cor, seca, quebra... Então... quando foi mesmo?

Pensando nisso, me lembrei dos outros "acúmulos": livros, DVDs, lingeries, caderninhos fofos, arquivos digitais. E percebi que as coisas foram acontecendo de acordo com as fases da vida pelas quais eu passava...

Fácil falar sobre as lingeries: quando eu tive que decidir morar sozinha (meu pai tinha perdido o emprego e minha família se mudaria para um lugar onde eu não poderia concluir meus estudos), eu era uma balconista de padaria cujo salário mal dava para o aluguel. Como resultado, passei bons meses usando 2 calcinhas e 1 sutiã. Lógico que isso me deixou bem traumatizada... Mas hoje eu preciso mesmo ter uns 60 conjuntos de lingeries e pelo menos umas 190 calcinhas (foi a última contagem, acho que agora devem ser menos... umas 160... rsrsrsrs)? Não creio que haja necessidade real...

Depois namorei um intelectual que gostava de filmes cult. Numa época em que internet era artigo de luxo e poucos filmes bons passavam no cinema da cidade, a opção era comprar DVDs. Assim, comprei vários: acho que atualmente devo ter uns 120 títulos lá em casa.

Continuando o acúmulo... Veio a fase dos esmaltes propriamente dita. Eu não sabia fazer minhas unhas. Andava bem desleixada com isso. Um dia aprendi a fazer minhas próprias unhas e saí comprando esmaltes diferentões numa época em que nudes, clarinhos e vermelhos eram os esmaltes mais usados! Imagine o quanto era bom andar por aí de unhas verdes? Ser a "diferente", a "ousada", a "corajosa", a "criativa"... Eu comprava coleções inteiras!!! Cheguei a ter mais de 1000 esmaltes, apareci na TV por causa disso e tinha uma conta no Flickr onde postava fotos das unhas... Isso por volta do anos anos 2009/2010...

Nessa mesma época criei o blog e entrei na fase de brigar com meu corpo - e comigo mesma. A cada novo projeto, desafio, tentativa de emagrecer, eu comprava um caderninho. Me convencia de que, no caderninho X, eu poderia anotar minha frequência de idas à academia; no caderninho Y, poderia escrever toda minha alimentação... E a cada projeto abandonado, eis que eu comprava um novo caderninho!!!! Loucura, né? Pois é, eu acho loucura!

Aí em algum momento que eu não sei precisar exatamente quando foi, comecei a me tornar uma pessoa mais organizada e disciplinada. Foi maravilhoso!!!! Até hoje eu aprimoro essas qualidades - organização e disciplina - e me divirto muito com elas... Mas para aprender sobre isso - e sobre os vários temas que começaram a interessar, como desenvolvimento pessoal - comecei a comprar livros e baixar arquivos em .pdf descontroladamente. Pronto, já tenho uma coleção com uns 200 livros físicos e provavelmente mais de 2000 arquivos digitais. Um excesso atrás do outro...

A questão é que, em cada fase, eu queria adquirir uma essência, uma ideia, um estilo... eu queria sentir, através das coisas que eu tinha/comprava/usava, um determinado sentimento. Com os caderninhos eu queria tentar me sentir mais organizada, por exemplo. Já com os livros eu queria me sentir inteligente... Com as lingeries, menos pobre, talvez (ou afastar de vez a sensação de escassez). Com os esmaltes, queria me sentir mais bonita numa época em que eu estava realmente linda, mas me achava gorda. 

Mas nada disso supriu o buraco que havia dentro de mim.

Na verdade, eu acho que me acostumei com o fato de que sempre haverá um vazio dentro de mim. Pessoas não podem e nem merecem tentar preencher esse vazio. Posses menos ainda! Então venho percebendo que nada do que eu usei para me preencher surtiu efeito... E aí comecei a me sentir absurdamente cheia, lotada... Sem espaço para apenas "ser"!

Engraçado pensar que hoje as minhas "posses" me remetem a desperdício de tempo/dinheiro e que as coisas que considero importantes e me fazem realmente felizes são simples... de uma simplicidade absurda! Então, olho para tudo o que está à minha volta, sob meus cuidados, e sinto como se eu tivesse um enorme fardo pra carregar. 

Não vou me desapegar de tudo. Não vou ter quantidades X e Y de cada coisa e muito menos vou me tornar uma pão dura inveterada - eu não sou assim, essa não é minha natureza! E muito muito menos jogarei minhas coisas no lixo pura e simplesmente.... Minhas faxinas e desapegos são bastante organizadas: praticamente tudo até agora tem ido para doações; algumas coisas pretendo colocar à venda por preços simbólicos... E assim vou tirando os pesos...

Porque a verdade é que eu quero viver apenas a minha vida e aquilo que hoje é importante para mim: ser feliz, ter paz e ter tempo para as coisas que hoje julgo verdadeiramente importantes...

Devagar eu chego lá!

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